Wednesday, September 27, 2006

Teoria do processamento de informação e psicopatologia do desenvolvimento

Tradução resumida do artigo:

Dodge, K. A. (1993). Social-cognitive mechanisms in the development of conduct disorder and depression. Annual Review of Psychology, 44, 559-584.


[inserir figura 1 aqui]


Processamento Social de Informação

1. Codificação: A quantidade de estímulos disponíveis a qualquer momento é tão grande e complexa que o organismo em desenvolvimento precisa a aprender a prestar atenção apenas a algumas características salientes dos estímulos, tais como expressões faciais, em detrimento de outras, com o intuito de responder eficazmente.
2. Representação Mental: O que a criança armazena na memória e o que importa é o significado que ela atribui ao evento-estímulo e não as características icônicas dos estímulos ou as propriedades topográficas de um evento.
3. Acesso a Respostas: As representações mentais são condicionadas ou pré-programadas para serem associadas a certos tipos de respostas possíveis, as quais incluem verbalizações, atividades motoras, secreções endócrinas, ativação autonômicas e afetos experienciados. O acesso a respostas segue regras do tipo "a rejeição é respondida com choro", as quais são representadas no cérebro como padrões adquiridos de atividade em redes associativas.
4. Avaliação das Respostas: As respostas acessadas não só necessariamente executadas sob a forma de comportamentos. Um processo de tomada de decisão avalia a aceitabilidade das respostas tantos em termos morais quanto no que diz respeito às conseqüências previstas. A falha em avaliar suficientemente as respostas acessadas é denominada de transtorno no controle de impulsos ou no adiamento de gratificação. A avaliação excessiva também é problemática, sendo concebida como transtorno relacionado a valores ou crenças inapropriados ou a falhas no processo de tomada de decisão.
5. Execução das Respostas: Apenas as respostas que ultrapassaram um determinado critério limiar são executadas sob a forma de comportamentos.


Codificação de Informação Social

Escolares cronicamente agressivos tendem a prestar atenção a um número menor de estímulos. Além disto, seus mecanismos atencionais são sistematicamente enviesados para estímulos hostis.

Os indivíduos depressivos depuram os estímulos positivos, filtrando e prestando atenção exagerada a estímulos negativos, principalmente quando estão processando estímulos novos em situações de perda afiliativa ou fracasso. Crianças deprimidas prestam mais atenção e recordam com mais facilidade palavras negativas auto-referentes do que palavras positivas.

As conseqüências destes vieses no processamento de informação fazem com que as crianças agressivas prestem atenção seletivamente a atos hostis dirigidos contra o self, acarretando atribuições hostis e agressão retaliatória.

Enquanto isto, as crianças deprimidas prestam mais atenção às evidências de fracasso, perda e auto-referência negativa, o que acarreta auto-ruminação e outros sintomas depressivos.


Representação Mental de Informação Social

Crianças socialmente desviantes e impopulares, incluindo tanto as crianças agressivas quanto as isoladas, tendem a apresentar déficits relativos na capacidade de assumir perspectivas afetivas (compreender as emoções dos outros), assumir perspectivas sociais (compreender as razões dos outros), gerar inferências organizadas e raciocinar na resolução de problemas sociais.

As respostas agressivas são mais prováveis quando o indivíduo identifica as intenções do outro como hostis em caso de provocação pressuposta. Pelo menos 26 estudos identificam um viés de atribuições hostis no caso de crianças cronicamente agressivas. As atribuições hostis são causa de agressões raivosas retaliatórias.

As pesquisas sobre representações mentais em crianças depressivas se concentrou sobre o padrão de atribuições causais face a eventos negativos, o qual se caracteriza pela internalização, globalidade e estabilidade.

Face a um evento acadêmico ou afiliativo negativo, o indivíduo que atribui o insucesso a fatores internos, globais e instáveis exibe uma maior probabilidade de se tornar negativo, do que as pessoas que não possuem este estilo cognitivo.

Pelo menos 18 estudos identificaram uma correlação positiva entre depressão e a tendência de atribuir eventos negativos a causas internas, globais e estáveis e eventos positivos a causas externas, específicas e instáveis. Os indivíduos deprimidos tendem a se engajar em pensamentos distorcidos e supergeneralizados a partir de eventos negativos.


Acessibilidade de Respostas Sociais

As respostas comportamentais dependem tanto do número quanto da qualidade das respostas acessadas. Se menos respostas socialmente competentes e mais respostas incompetentes são acessadas, o indivíduo tende a exibir comportamento desviante.

Existe uma correlação negativa entre o número de resposta que uma criança acessa e o grau de agressividade exibido no seu comportamento. A intensidade desta correlação é máxima durante a transição da pré-escola para a idade escolar. Á medida que as crianças vão ficando mais velhas o que importa mais é a qualidade e não o número de respostas acessadas.

Um outro aspecto diz respeito ao afeto gerado à medida que as diversas respostas vão sendo acessadas. As evidências indicam que as crianças agressivas tem dificuldade em identificar suas emoções de raiva ou que podem agir agressivamente sem qualquer ativação autonômica.

No caso das crianças deprimidas ocorre um acesso a numerosas respostas socialmente irrelevantes e poucas respostas assertivas. Além de acessarem mais respostas irrelevantes, as crianças deprimidas também experimentam mais tristeza e raiva e menos alegria, principalmente em relação ao insucesso acadêmico e rejeição social.



Avaliação e Seleção de Respostas Sociais

As dimensões que influenciam o processo de avaliação são a aceitabilidade moral (quão "bom" ou "mau" o comportamento é), expectativas instrumentais (ganhos materiais) e sancionais (punições pelas figuras de autoridade), bem como julgamentos dos resultados interpessoais (gostar), intrapessoais (afeto sobre o self) e de auto-eficãcia.

Existem evidências de que, por um lado, as crianças cronicamente agressivas podem executar as respostas sem uma avaliação suficiente das suas conseqüências ulteriores. Por outro lado, as crianças agressivas tendem a valorizar a agressão de modo mais positivo.

A avaliação positiva dos comportamentos agressivos se correlaciona mais com o estágio de avaliação das respostas e com a agressão proativa ou instrumental, enquanto a agressão retaliativa está mais correlacionada com o estágio de representação mental (viés atributório hostil).

De um modo geral, as crianças depressivas tendem a julgar como mais positivas as respostas de retirada e isolamento, ainda que esperem menos resultados instrumentais positivos e mais resultados instrumentais negativos deste tipo de comportamento.

Aparentemente, as crianças depressivas tendem a apoiar e se engajar respostas de retirada em função do fato de disporem de um repertório reduzido de respostas assertivas.


Processamento Social de Informação e Psicopatologia do Desenvolvimento

As experiências sociais iniciais interagem com as restrições biologicamente embasadas quanto à capacidade de memória e de processamento neural de informação na construção de estruturas de conhecimento.

Estas estruturas de conhecimento consistem de esquemas representativos das experiências prévias de vida, expectativas quanto aos eventos futuros e vulnerabilidades emocionais.

Face a determinados estímulos sociais, estas estruturas de conhecimento organizam o processamento de informação pela criança em termos da atenção seletiva a determinadas características do evento-estímulo, representação mental destas características, acesso e avaliação das respostas possíveis, etc.

Em função das experiências e disposições do indivíduo, o produto final do processamento regulado pelos esquemas cognitivos pode ser um comportamento desviante. O processamento de informação social cronicamente desviante pode culminar em diagnósticos psiquiátricos e de psicopatologia.

O modelo proposto integra tanto as origens biológicas quanto experienciais e ambientais da psicopatologia. Os construtos de estruturas de conhecimento e padrões de processamento de informação descrevem os processos mentais concomitantes de psicopatologia e correspondem, respectivamente, aos níveis distal e proximal de eficácia causal. As redes neurais permitem modelar estes processos no nível neuronal. As origens da psicopatologia se relacionam tanto com as experiências individuais quanto com fatores genéticos e predisposições biológicas adquiridas.


Distúrbio de Conduta: Psicopatologia do Desenvolvimento

Com respeito ao distúrbio de conduta, o modelo postula que as experiências precoces de abuso físico, exposição a modelos agressivos e vínculos inseguros com os cuidadores primários levam uma criança a desenvolver estruturas mnemônicas onde o mundo é representado como um local hostil, onde são necessárias respostas coercivas com o intuito de atingir os seus objetivos pessoais.

Mais tarde, quando a criança se confronta com estímulos provocativos tais como piadinhas dos colegas, brincadeiras rudes ou exigências dos adultos, estas estruturas de conhecimento fazem com que ela preste seletivamente atenção aos aspectos hostis, interpretando os estímulos sociais ambíguos como ameaçadores ao self.

As redes associativas na memória da criança fazem com que ela acesse predominantemente respostas agressivas, as quais são também valorizadas como positivas, desencadeando a execução de respostas também agressivas.

Experiências repetidas deste tipo acabam reforçando tais estruturas de conhecimento na criança, fazendo com que este padrão de processamento se automatize e acarretando o desenvolvimento de distúrbios de conduta.

[inserir figura 2 aqui]

Depressão: Psicopatologia do Desenvolvimento

No caso da depressão, as experiências iniciais de vida só de perda interpessoal, de instabilidade ou de pressão para atingir objetivos irrealistas. Estes dois últimos fatores são mais prováveis se um dos progenitores também é deprimido. A partir destas experiências iniciais a criança desenvolve um esquema negativo do self e uma baixa auto-estima.

Mais tarde, quando esta criança se defronta com perdas interpessoais ou fracassos, estes esquemas cognitivos fazem com que ela processe seletivamente os aspectos negativos destes eventos, atribuindo-os a causas internas, globais e estáveis.

Aumenta então a probabilidade de que a criança acesse respostas depressivas da memória, comportamentos com afeto de tristeza, redução do nível de atividade e outros sintomas de depressão.

O esquema negativo da criança e o padrão depressogênico de processamento informacional impedem que influências externas tais como o apoio familiar ou as evidências em contrário mitiguem os sintomas depressivos, contribuindo para que a criança se torne cronicamente depressiva.

[inserir figura 3 aqui]

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