Saturday, December 01, 2018

A PEDAGOGIA É UM INSTINTO?

Ao longo do tempo, o comportamento muda por dois mecanismos: a evolução por seleção natural/sexual, que é mais lenta, e a evolução por seleção cultural, que é bem mais rápida e vem se acelerando. A cultura é um instinto, ou seja, uma estratégia evolutivamente estável. A possibilidade de criar e desenvolver uma dimensão cultural da ecologia, uma herança transmissível de uma geração para outra, é parte da natureza humana. Ela é uma estratégia evolutivamente estável no sentido de que confere vantagem adaptativa para os grupos com "genes culturais" no seu pool, genes esses que predispõem à emergência e manutenção da cultura e que são transmitidos de uma geração a outra.

A ensinagem é a estratégia evolutivamente estável que sustenta a cultura. Ou seja, a transmissão do legado cultural de uma geração para outra. Diferentemente de outros primatas, os humanos têm um instinto de imitar e ensinar. A ensinagem se desenvolve ao longo do ciclo vital da mesma forma que outras habilidades, tais como a linguagem oral. Um ingrediente importante da ensinagem é a teoria da mente. O ensinante precisa compreender que o aprendiz não dispõe de um conhecimento essencial, o qual precisa ser ensinado. Ao mesmo tempo, o ensinante precisa entender as restrições cognitivas que limitam a aprendizagem e o melhor modo de superá-las. A responsabilidade pelo processo de ensino-aprendizagem é do ensinante. Se o processo falha, a responsabilidade é do ensinante e não do aprendiz. Mas, como veremos mais adiante, o instinto tem limites. A partir de um determinado momento é complementado por uma tecnologia.

A relação entre ensinante e aprendiz é hierárquica. De um lado há alguém que sabe uma coisa, do outraouma pessoa que não sabe e precisa aprender. Isso não quer dizer que um aluno não possa ensinar a um professor. Ensinante/aprendiz e professor/aluno não são papéis que se associam biunivocamente de forma rígida. Os recortes entre os papéis de ensinante/aprendiz e professor/aluno são múltiplos e diferenciados no tempo e contextos sociais. Um dos critério que utilizo para aferir o meu sucesso como professor consiste, justamente, em passar a aprender com os meus ex-alunos. A partir de um certo momento, os bons alunos passam a saber mais que eu. E eu tenho um enorme prazer em aprender com eles. Tenho alunos a quem recorro, com o maior respeito e alegria, sempre que preciso aprender alguma coisa.

Mas a evolução cultural acrescentou uma camada adicional de complexidade ao comportamento humano. Ao longo dos milhares de anos, a evolução cultural se acelerou e, ao menos parcialmente, se descolou da evolução natural/sexual. A evolução cultural é avassaladora. Nós vivemos na era do conhecimento. O desempenho cognitivo é, cada vez mais, uma das principais pressões seletivas na evolução da espécie.


O fenômeno da neotenia é um dos sustentáculos da cultura. Em função do aumento do tamanho cerebral, o parto humano ocorre de forma relativamente prematura. O bebê humano nasce imaturo porque as últimas etapas do desenvolvimento cerebral, principalmente do córtex, ainda não aconteceram. O acabamento do desenvolvimento cerebral, representado pela organização citoarquitetônica cortical e sinaptogênese, ocorre sob a influência do ambiente cultural. A criança leva anos até amadurecer e adquirir os conhecimentos que lhe capacitam para a navegação social adulta. Ao longo dos anos, a convivência social e aprendizagem são forças poderosas na modelagem da estrutura anámoto-funciional do cérebro. Esse tempo só tem se espichado nos últimos anos, levando ao fenômeno da adolescência estendida. A pessoa só atinge os graus mais elevados de competência sócio-cognitiva após muitos anos de vida e de estudo. Muitas vezes, isso só acontece bem perto da terceira década de vida.

O descompasso entre a evolução cultural acelerada e a evolução por seleção natural/sexual mais retardada cria um hiato entre as demandas colocadas pelo meio e as possibilidades de resposta oferecidas pela natureza humana. Em sociedades menos tecnológicas e menos historicizadas, as intuições primárias quanto ao tempo, espaço, quantidade, causalidade, vida, self e sociabilidade permitem que o indivíduo se desenvolva quase de forma espontânea, ou ao menos sem muita interferência intencional por parte de outrem, até a maturidade sócio-cognitiva. Nas sociedades mais tecnológicas e mais historicizadas - no sentido de terem acumulado mais história e mais conhecimento - a intuição e o convívio social espontâneo não são suficientes para que o indivíduo adquira os conhecimentos que lhe serão exigidos.

Surge então a pedagogia. O simples instinto de ensinagem não é mais suficiente. Houve a necessidade de desenvolver uma tecnologia que assegurasse a transmissão do legado cultural de uma geração para outra. E que legado cultural é esse? Segundo o psicólogo evolucionista estadounidense David Geary, as habilidades cognitivas podem ser categorizadas em biologicamente primárias e secundárias.

As habilidades biologicamente primárias são aquelas cuja aprendizagem não depende de uma pedagogia. Ou seja, são habilidades adquiridas espontaneamente, através da intuição, prática e convívio social em uma determinada ecologia cultural. A linguagem oral é um dos principais exemplos de habilidades cognitivas primariamente biológicas. As crianças não são ensinadas a falar. A linguagem é adquirida espontaneamente e para isso basta conviver em uma comunidade de falantes de alguma língua.

As habilidades biologicamente secundárias são representadas por aquelas formas de conhecimento cuja aprendizagem depende de forma crucial da pedagogia. Um exemplo notório é a lectoescrita. Algumas crianças, as mais inteligentes, aprendem a ler de forma espontânea e cada vez mais cedo. A aprendizagem da lectoescrita para a maioria das crianças depende, entretanto, de intervenções instrucionais. Intervenções instrucionais que são tão mais necessárias quanto mais dificuldade a criança apresentar.

A aquisição de habilidades cognitivas secundária, tais como a lectoescrita ou aspectos mais formais da aritmética, é um processo complexo para o qual os indivíduos não são dotados de uma preparedness intuitiva ou de uma motivação primária. A aquisição de habilidades secundárias exige esforço e atenção, prática continuada e persistência, sendo muito sujeita a erro. A aprendizagem de habilidades cognitivas secundárias é intrinsecamente aversiva e pode ser muito frustrante devido ao erro. O desafio da pedagogia é desenvolver tecnologias que facilitiem o processo e que permitam ao indivíduo desenvolver uma motivação intrínseca para o estudo e aprendizagem. A motivação intrínseca para o estudo só se desenvolve a partir dos resultados. O indivíduo aprende que existe uma relação entre o esforço dispendido e os resultados, sendo os resultados recompensadores.

Assim sendo, a partir de um determinado ponto, as pressões seletivas impostas pela tecnologização e historicização progressivas da cultura, com o conseqüente acúmulo avassalador de conhecimento, superam em munto as possibilidades do equipamento cognitivo padrão da espécie. A pedagogia é justamente a tecnologia desenvolvida para responder a esse imperativo de transmitir de uma geração para outra as habilidades cognitivas biologicamente secundárias.


Essas considerações evolucionárias têm importantes conseqüências para a pedagogia. A pedagogia contemporânea enfatiza, de uma forma ou de outra, as diversas abordagem construtivistas para o ensino/aprendizagem. A idéia subjacente é que a criança não deve ser ensinada algo se tem condições de aprender por conta própria. O papel do professor deve se restringir a um mínimo de estruturar contextos apropriados nos quais o aprendiz possa intuir os conhecimentos almejados através da descoberta por experimentação com a ecologia física e social.


A principal limitação da abordagem construtivista é que nem todas as habilidades podem ser aprendidas por conta própria e nem todas as crianças têm condições de aprender por conta própria. A aprendizagem de habilidades cognitivas biologicamente secundárias e a aquisição de uma motivação intrínseca para o estudo, principalmente pelas crianças com mais dificuldades, dependem crucialmente da instruição formal, ou seja, da pedagogia.

Respondendo então à pergunta: A pedagogia é e não é um instinto. A pedagogia é um refinamento tecnológico de um instinto de ensinar, baseado na teoria da mente. A cultura se sustenta na capacidade de imitar/ensinar, propiciada pela neotenia, ou seja pela imaturidade relativa do cérebro ao nascer. A historicização da cultura e o acúmulo de conhecimento propiciaram o desenvolvimento de habilidades cognitivas biologicamente secundárias, que somente são aprendidas pela intervenção de uma tecnologia, a pedagogia. As crianças aprendem espontaneamente, pela descoberta e interação social, aquelas habilidades primárias que compõem o equipamente cognitivo padrão da espécie, tais como a linguagem. As habilidades secundárias, tais como a lectoescrita, exigem instrução para serem aprendidas pela maioria das crianças.

Friday, November 23, 2018

2019/1: DESEMPENHO ESCOLAR EM DISCIPLINA DO PPG EM NEUROCIÊNCIAS

Programa de Pós-graduação em Neurociências
ICB - UFMG

Projeto de disciplina

TÍTULO

Fundamentos neuropsicológicos e sociodemográficos do desempenho escolar

DOCENTE: Vitor Geraldi Haase

MONITOR: Henrique Augusto Torres Simplício

EMENTA: Bases genéticas, neurocognitivas e sociodemográficas associadas às diferenças individuais no desempenho escolar.

DATA: Primeiro semestre de 2019.

HORÁRIO: Segundas-feiras de 10:00 às 13:00 horas.

LOCAL: FAFICH.

CARGA HORÁRIA: 45 horas.

VAGAS: 40 (quarenta), incluindo matrículas em disciplina isolada.

PRÉ-REQUISITO: Habilidade de leitura em inglês.

MÉTODO DE ENSINO: Aulas expositivas e seminários.

AVALIAÇÃO: Seminário (30 pontos), duas provas escritas (35 pontos cada). 

PROGRAMA

  1. O problema do desempenho escolar no Brasil
  2. Evolução e educação
  3. Diferenças individuais e desempenho escolar
  4. Genética comportamental do desempenho escolar
  5. Bases neurais da aprendizagem escolar: Conhecimento
  6. Bases neurais da aprendizagem escolar: Memória de trabalho
  7. Bases neurais da aprendizagem escolar: Motivação
  8. Caracteristicas da família e desempenho escolar
  9. Características da escola e desempenho escolar
  10. Sociodemografia do desempenho escolar: Em busca de um modelo integrativo



RESUMO

1. O problema do desempenho escolar no Brasil

As crianças e adolescentes brasileiros não aprendem na escola. São mais freqüentes do que o desejável as consultas em serviços de neuropsicologia de adolescentes com inteligência normal que permanecem analfabetos ao final do Ensino Fundamental II. O desempenho de adolescentes brasileiros em testes internacionais como o PISA é notoriamente deficiente. Ao mesmo tempo, o Brasil gasta muito em educação. As análises econônomicas indicam que o problema está relacionado com a gestão e não com a falta de recursos. Adicionalmente, as práticas educacionais no Brasil não se fundamentam nas melhores evidências científico-psicológicas disponíveis. A formação psicológica dos pedagogos não incorpora resultados importantes da pesquisa em psicologia comportamental e cognitiva nos últimos 50 anos. Resultados esses que fariam diferença em sala de aula.


2. Evolução e educação

Na espécie humana, a pedagogia é um instinto. A cultura e a pedagogia são estratégias evolutivamente estáveis. A pedagogia é a atividade humana que objetiva a transmissão da cultura de uma geração para outra. A evolução cultural avassaladora dificulta a atividade pedagógica na época atual. A adaptação a mundo atual impõe demandas cognitivas crescentes. Demandas essas que somente são satisfeitas às custas de muito esforço por parte do aprendiz. As habilidades cognitivas podem ser divididas em biologicamente primárias, tais como a linguagem oral, e biologicamente secundárias, tais como a lectoescrita. As habilidades cognitivas biologicamente primárias são adquiridas de forma instintitiva, sem necessidade de intervenções pedagógicas específicas. As habilidades cognitivas biologicamente secundárias requerem intervenções pedagógicas para sua aquisição. Não existe uma motivação instintiva que propicie a motivação e intuição das habilidades secundárias. A aquisição das habiliddes secundárias exige habilidades cognitivas gerais (inteligência, funções executivas) e específicas (habilidades fonológicas, habilidades numéricas, habilidades sociais etc.), as quais são adquiridas apenas às custas de muito esforço e que não são intrinsecamente reforçadoras. O desafio da pedagogia é construir uma motivação secundária para o estudo. 


3. Diferenças individuais e desempenho escolar

Em geral, as diferenças individuais explicam de 80% a 90% da variância (populacional) no desempenho escolar. Fatores relacionados à escola e classe explicam 10% a 20% da variância (populacional). As diferenças individuais são o resultado de um processo epigenético de interação entre influências genéticas e ambientais. A pobreza é o principal fator de risco para dificuldades de aprendizagem escolar. As habilidades cognitivas gerais (inteligência, funções executivas) são o principal indicador prognóstico quanto ao desempenho escolar. Quanto mais desigual for uma sociedade menor será a influência das diferenças individuais e maior a influência de fatores sócio-ambientais relacionados à escola e classe. As crianças mais pobres e aquelas com transtornos de desenvolvimento e de aprendizagem são mais dependentes da qualidade do método, da professora e da escola para aprenderem.


4. Genética comportamental do desempenho escolar

O desempenho escolar é o resultado de um processo epigenético complexo de interação ente influências ambientais e genéticas. As influências genéticas explicam cerca de 60% da variância (populacional) no desempenho escolar. As influências ambientais podem ser classificadas em compartilhadas (que tornam os irmãos semelhantes) e não compartilhadas (que tornam os irmãos diferentes). A variância (populacional) no desempenho escolar depende mais do ambiente não-compartilhado do que do ambiente compartilhado. As investigações tradicionais em ciências sociais e comportamentais amostram um indivíduo de uma família, interpretando seu desempenho como ilrepresentativo da família como um todo. Entretanto, o ambiente compartilhado, ou seja as semelhanças entre os irmãos, explica apenas de 5% a 10% da variância (populacional) no desempenho escolar. Quanto mais desigual for uma sociedade, menor será a influência das influências genéticas e maior a influência de fatores sócio-ambientais sobre o desempenho escolar. As influências genéticas e o ambiente não-compartilhado interagem de forma complexa. As interações genético-ambientais podem ser passivas (o indivíduo herda dos pais o ambiente em que vive), reflexas (as pessoas reagem e reforçam as características inatas do indivíduo) e ativas (os indivíduos constroem o ambiente em que vivem).


5. Bases neurocognitivas da aprendizagem escolar: Conhecimento

A aprendizagem escolar pode ser concebida como formação de hábitos ou aquisição de habilidades. Segundo William James, a pessoa educada é aquela que cultiva bons hábitos. Ou seja, aquela pessoa que constrói rotinas para funcionar na vida cotidiana, libera recursos cognitivos preciosos para a resolução de problemas mais complexos ou para o lazer. O conhecimento é importante para a aprendizagem. Quanto mais a pessoa sabe, mais facilmente ela aprende. Por exemplo, o vocabulário (conhecimento de mundo) é um dos principais preditores da compreensão leitora. Existem várias formas de conhecimento: conceitual (p. ex., compreensão das operações aritméticas), factual (p. ex., fatos aritméticos) e procedimental (p. ex., algoritmos de cálculo e estratégias de resolução de problemas). Todas formas de conhecimento são importantes. Não basta compreender, é também preciso memorizar e automatizar o conhecimento. As provas não apenas avaliam o conhecimento adquirido, mas elas são também uma oportunidade de aprendizagem. Sempre que ocorre uma situação potencialmente problemática, inicia-se um processo de busca por uma solução previamente aprendida. Caso uma solução previamente aprendida esteja disponível, o problema está resolvido. Quando uma solução previamente disponível não está disponível, é preciso ativar a memória de trabalho.

Figura. Modelo simples da mente proposto por Willingham (2011). A aprendizagem escolar pode ser explicada em função de três componentes: o conhecimento, a memória de trabalho e a motivação. Quando surge uma questão potencialmente problemática, ocorre uma busca por uma solução previamente adquirida e armazenada como conhecimento na memória de longo prazo. Caso essa solução esteja disponível, o problema está resolvido. Caso não haja uma solução disponível na memória de longo prazo, a memória de trabalho precisa ser ativada para que uma nova solução seja encontrada a partir de uma estratégia de solução de problemas. O processamento controlado na memória de trabalho custa esforço, exige atenção, sendo muito sujeito a erro. A capacidade de processamento na memória de trabalho é limitada, tornando a ativação da mesma aversiva. A motivação é a fonte energética que mantém a memória de trabalho ativada enquanto uma solução é desenvolvida. O conhecimento é o resultado desse processo interativo de ativação da memória de trabalho e armazenamento e reorganização da memória de longo prazo.


6. Bases neurocognitivas da aprendizagem escolar: Memória de trabalho

A memória de trabalho é o lócus da aprendizagem. A memória de trabalho pode ser comparada à memória RAM de um computador. A aprendizagem se baseia na ativação e processamento de informação na memória de trabalho. Não existe aprendizagem passiva. Toda aprendizagem é ativa. Por um lado, a atividade mental pode se restringir à memória de trabalho não sendo manifesta do ponto de vista comportamental. Por outro lado, a atividade comportamental pode não se interiorizar e, portanto, não se refletir em aprendizagem. A construção do conhecimento se processa na memória de trabalho e não necessariamente através de ações externamente observáveis. A principal característica da memória de trabalho é a limitação quantitativa e temporal na capacidade de processamento. A quantidade de informação representável e processável na memória de trabalho é limitada. A memória de trabalho é transitória. Após alguns segundos, a informação se esvanece. Métodos instrucionais, mais estruturados, são mais eficientes para a aprendizagem porque não sobrecarregam a memória de trabalho A aprendizagem colaborativa e por descoberta é pouco estruturada e impõe mais demandas quanto aos recursos limitados de processamento na memória de trabalho. O método instrucional é especialmente importante para as crianças pobres e/ou que têm dificuldades de aprendizagem.


7. Bases neurocognitivas da aprendizagem escolar: Motivação

O processamento controlado na memória de trabalho demanda esforço, atenção, sendo muito sujeito a erro. A ativação da memória de trabalho, necessária para a aprendizagem, é aversiva. As crianças são intrinsecamente motivadas para adquirir determinados tipos de conhecimento, tais como a linguagem oral. Mas as crianças não são intrinsecamente motivadas para adquirir os conteúdos escolares, os quais são complexos e, porisso, dependentes da ativação da memória de trabalho. A motivação é a fonte energética que mantém a memória de trabalho ligada enquanto a aprendizagem se processa. O desafio da pedagogia é construir uma motivação intrínseca para o estudo e aprendizagem. Isso somente é possível através dos resultados. Uma das principais habilidades adquiridas na escola resulta da compreensão de que existe uma relação entre o esforço dispendido e o resultado alcançado. A pessoa somente se motiva para estudar se obtém resultado. Por esse motivo, a aprendizagem deve se processar sem erro. O currículo deve ser adaptado ao nível de proficiência do aluno, de tal forma que esteja ao seu alcance com um pequeno esforço. Outras influências motivacionais importantes são as características inerentes do indivíduo, as expectitativas dos adultos e as contingências de reforçamento. Indivíduos mais inteligentes, reflexivos e conscienciosos tendem a se motivar mais para o estudo. Se o adulto acredita que a criança tem potencial, ele investe mais tempo e esforço na sua educação. A criança tende a desenvolver as qualidades elogiadas. Se o estudo e o bom comportamento são incentivados, os mesmos tendem a aumentar de freqüência.


8. Caracteristicas da família e desempenho escolar

Quando a ecologia familiar é desfavorável, uma estratégia reprodutiva quantitativa é mais adaptativa. Quando a ecologia se caracteriza por escassez de recursos, conflito familiar, instabilidade conjugal, abuso e maus-tratos, desiguldade social, mortalidade elevada, perspectivas reduzidas de ascensão social etc., ter mais filho se traduz em maior probabilidade de transmitir os genes de uma geração para outra. Quanto mais filhos uma família tem, menos recursos são disponibilizados e menor é o investimento na educação das crianças. Essas características da ecologia familiar são percebidas de forma implícita desde a mais tenra infância e imprintam o desenvolvimento do indivíduo para uma maturação sexual acelerada e uma estratégia reprodutiva quantitativa. As características do ambiente familiar são transmitidas de forma epigenética de uma geração para outra.


9. Características da escola e desempenho escolar

As crianças mais pobres e/ou com dificuldades de aprendizagem escolar são mais sensíveis à qualidade do ensino. A mudança de uma professora mais compreensiva e engajada para uma professora com características opostas pode ter efeitos desastrosos sobre a aprendizagem de uma criança. Principalmente se a criança tem dificuldades de aprendizagem ou problemas de comportamento. A qualidade das escolas, públicas ou privadas, é muito variável e também afeta o desempenho escolar dos alunos, principalmente também daqueles com dificuldades. As políticas educacionais implantadas em nosso País não se fundamentam em evidências científicas mas em pressupostos ideológicos indemonstráveis.  Os professores têm escassa autonomia decisória. As diferenças inter-regionais e inter-individuais não são consideradas. A carreira de magistério é pouco atraente e a formação dos professores deficiente, sendo altos os níveis de insatisfação, estresse, desmotivação e absenteísmo.


10. Sociodemografia do desempenho escolar: Em busca de um modelo integrativo

Como o desempenho escolar é um fenômeno complexo, multi-determinado, a melhoria da qualidade do ensino e do rendimentos dos alunos depende de intervenções em múltiplos níveis. Alguns dos fatores identificados se relacionam às caracteristicas individuais, familiares, escolares e institucionnais, as quais resultam da interação de influências genéticas e ambientais. 


REFERÊNCIAS

Asbury, K., & Plomin, R. (2013). G is for genes. The impact of genetics on educational achievement. Chichester: Wiley. New York: Springer.

Babad, E. (2009). The social psychology of the classroom. New York: Routledge.

Christodoulou, D. (2014). Seven myths about education. Routledge.

Franks, D. D. (2010). Neurosociology. The nexus between neuroscience and social psychology. 

Haier, R. J. (2017). The neuroscience of intelligence. Cambridge University Press.

Moreno, R. (2009). Educational psychology. New York: Wiley. 

Willingham, D. T. (2011). Por que os alunos não gostam da escola. Porto Alegre: Artmed.













Tuesday, November 20, 2018

SANTÍSSIMA TRINDADE DA EDUCAÇÃO

O only game in town da educação brasileira é a luta do Dragão da Maldade, também conhecido como Paulo Freire, contra os Santos Guerreiros, compostos pela Santíssima Trindade formada por Henri Wallon (1879-1962), Lev Semenovich Vygotsky (1896 – 1934) e Jean Piaget (1896-1980).


A hegemonia desses autores na formação psicológica e ideológica dos pedagogos brasileiros é inconteste. Basta olhar os currículos dos cursos de graduação em pedagogia. O gatilho que me levou a escrever esse post foi um link que vi no FaceBook recentemente. O autor achou que as idéias dos Santos Guerreiros são tão importantes que mereciam ser didatizadas sob a forma de um quadro comparativo.

Eu não nego a importância dos Santos Guerreiros. Mas a importância deles é histórica. O mais novinho deles morreu em 1980. Acontece que os avanços da psicologia comportamental e cognitiva nos últimos 50 anos não podem ser ignorados. Os Santos Guerreiros merecem ser estudados, porém num contexto histórico, reinterpretados à luz dos conhecimentos atuais. Infelizmente, não é isso que acontece. A sabedoria dos Santos Guerreiros é tratada como se fosse o estado atual do conhecimento. 

Mas o que aconteceu na psicologia nos últimos 50 anos, que tornou grande parte do ideário dos Santos Guerreiros obsoleto? Basicamente, aprendemos muita coisa sobre os mecanismos motivacionais e cognitivos subjacentes à aprendizagem escolar. Entre outras coisas, as evidências empíricas indicam que:

a) Os métodos comportamentais, principalmente reforçamento diferencial, são extreamamente eficientes para controlar o comportamento em sala de aula sem usar punição e para motivar os alunos para o estudo;

b) A motivação para a aprendizagem se baseia no sucesso previamente obtido. Por essa razão a aprendizagem sem erro, com individualização do currículo, é fundamental;

c) As abordagens educacionais que incluem instrução formal são mais eficientes do que as abordagens que desconsideram a instrução;

d) A inteligência geral é o principal fator associado ao sucesso na aprendizagem escolar;

e) O conhecimento prévio (p. ex., vocabulário e habilidades) é um importante pré-requisito para a aprendizagem;

f) Existem diversas formas de conhecimento, como p. ex., conceitual (conceito de número e compreensão das operações), factual (fatos aritméticos), procedimental (contagem nos dedos, algoritmos). Todas as formas de conhecimento precisam ser explicitamente desenvolvidas;

g) Um dos principais limitadores da aprendizagem escolar é a capacidade limitada de processamento na memória de trabalho, o lócus operacional da aprendizagem;

h) Como a capacidade de processamento é limitada na memória de trabalho, o processo de aprendizagem é muito sujeito a erro, exigindo esforço, atenção concentrada e prática repetida;

i) Os métodos instrucionais reduzem a demanda por memória de trabalho e favorecem a aprendizagem;

j) As abordagens construtivistas, de aprendizagem por descoberta e colaboração social, sobrecarregam a memória de trabalho e podem ter efeitos negativos sobre a aprendizagem. Isso é expecialmente importante para as crianças que têm dificuldades de aprendizagem;

k) Um grupo significativo de alunos com inteligência normal apresenta déficits em algum tipo específico de conhecimento, dificultando a aprendizagem. P. ex., algumas crianças têm dificuldade com o vocabulário, o que dificulta a compreensão de leitura. Outras crianças não conseguem automatizar as conexões entre as letras e os sons, dificultando a aquisição de fluência na leitura;

l) Os métodos instrucionais e o manejo comportamental favorecem a aprendizagem de crianças com dificuldades.

Esses e outros resultados foram integrados por Willingham  (2011) em um  modelo cognitivo da aprendizagem escolar, o qual pressupõe uma arquitetura cognitiva simples, composta por memória de longo prazo (conhecimento de diversos tipos), memória de trabalho (lócus operacional da aprendizagem) e  motivação (a fonte energética que mantém a memória de trabalho ligada durante a aprendizagem). O livro do Willingham é uma excelente porta de entrada para a psicologia científica da aprendizagem. 


Há um interesse muito grande pela neurociência na área de educação. E, realmente, a neurociência poderá contribuir muito para a educação. Mas não há como integrar evidências neurocientíficas à educação sem passar pela psicologia comportamental e cognitiva. Os modelos testados pelos métodos de neuroimagem funcional se originaram e somente fazem sentido à luz dos modelos cognitivos, principalmente de processamento de informação. A psicologia comportamental e cognitiva é a ponte entre neurociência e educação.  A Santíssima Trindade vive em outra esfera da realidade, muito distinta da neurociência.

Referência


Willingham, D. T. (2011). Por que os alunos não gostam da escola. Porto Alegre: ARTMED.

Friday, October 19, 2018

BEETHOVEN TINHA DISCALCULIA?

Um dos esportes prediletos dos médicos e neuropsicológos é furungar na vida das pessoas famosas e mineirar informação sobre suas doenças. 

Na maioria das vezezes isso não leva a nada. Mas é divertido. Pode ser útil também para jovens com dificuldades de aprendizagem e suas famílias saber, p. ex., que o Padre Vieira e o Churchill tinham dislexia e que o Érico Veríssimo tinha discalculia. Acho que ajuda entender que a vida da pessoa não se resume à difficuldade de aprendizagem. Que é possível ter muito sucesso na vida, apesar das dificuldades de aprendizaegm.

Hoje descobri que, muito provavelmente, o Beethoven tinha discalculia. Vejam o que fala um dos seus biógrafos:

“In school he learned to add but never to divide or multiply. To the end of his life, if he needed to multiply 62 by 50, he did it by writing 62 in a column 50 times and adding it up” (Swafford, 2014).

O Beethoven saiu da escola com 11 anos, sem aprender a dividir e multiplicar. Nunca aprendeu isso. Há especulações de que essas dificuldades com a matemática tenham contribuído para suas dificuldades financeiras.



Esse detalhe da vida do Beethoven tem uma outra implicação. O povo fala muito que música tem a ver com matemática. Isso é verdade em um certo sentido. A música tem a ver com a matemática se essa última disciplina for definida como ciência dos padrões. Ou seja, se compreendermos a matemática em um sentido amplo como uma disciplina interessada em descrever padrões abstratos, ordenados e lógicos.

Por outro lado, se considerarmos as dificuldades de Beethoven com a aritmética, constatamos que o gênio musical pode não ter nada a ver com a proficiência nessa parte da matemática.

Referência


Swafford, J. (2014). Beethoven: anguish and triumph. A biography. Boston: Houghton, Mifflin, Harcourt

Tuesday, October 16, 2018

EX-CLUSÃO EM CLASSE REGULAR: Exemplo de uma política sem fundamentação em evidências

Allison F. Gilmour, uma professora de educação especial na Temple University teve a coragem de questionar as atuais políticas de educação inclusiva, para jovens com deficiências, em escolas regular.
Allison Gilmour
Temple University

Gilmour publicou um artigo na revista EducationNext (Gilmour, 2018a), ligada à Brookings Institution, o qual foi seguido de uma réplica (Shifter and Hehir, 2018) e de uma tréplica (Gilmour, 2018b).

Basta conversar com qualquer pai ou mãe de alguma criança ou adolescente com deficiência intelectual e/ou autismo, "incluído" em classe regular, para saber que o negócio não funciona. Os problemas com a tal "inclusão" são vários. Vou mencionar apenas alguns, levantados na minha prática clinica.



Em primeiro lugar, as crianças não aprendem. As disparidades curriculares só aumentam com o tempo. As crianças com deficiência vão ficando para trás

Em segundo lugar, o convívio com crianças típicas propicia a realização de comparações sociais ascendentes, diminuindo a auto-eficácia e, conseqüentemente, a motivação das crianças com dificuldades.

Em terceiro lugar, o convívio com crianças típicas aumenta o risco de exposição a abuso (hoje em dia chamado de "bullying"). As pessoas com deficiências são vítimas preferenciais de tudo quanto é tipo de abuso moral (ostracismo, desmoralização), físico (agressão), financeiro (furto de merenda, de dinheiro) e sexual (assédio ou até mesmo coisa pior). É raro conversar com um mãe que não tenha um episódio para contar.

Em quarto lugar, as professoras regulares e os "tutores" não têm formação e motivação para trabalhar com as crianças especiais. Essa missão é percebida como uma sobrecarga e um estressor.

Em quinto lugar, a política de inclusão em escolas regulares é implementada sem levar em consideração as necessidades dos alunos, pais e professores. Não existe sistema sem efeitos colaterais. A escola especial é boa para certas coisas e ruim para outras. O mesmo acontece com a escola regular. Um tipo de escola pode ser melhor para uma criança, outro tipo para outra. Um tipo de escola pode ser melhor em uma fase do desenvolvimento da criança, o outro tipo pode ser melhor noutra fase etc.

Finalmente, a política de inclusão em escolas regulares é implantada de forma autoritária, rígida, burra, privando as famílias e professoras da possibilidade de tomar decisões que melhor se adequem ao seu perfil e necessidades.

Eu sempure desconfiei que essa política de "inclusão" em escolas regulares se fundamenta mais em motivações ideológicas e econômicas. A motivação ideológica é claramente a correção política. A motivação econômica também é clara. Escola especial custa caro e dá mais trabalho para administrar. Formação decente para as professoras nem pensar. Isso também é contra a ideologia paulofreiriana, além de exigir uma competência que não abunda por aí.

Pois bem, sob esse pano de fundo das coisas que eu vivi e que eu penso, vou fazer um resumo daquilo que aprendi lendo o artigo da Profa. Gilmour. Ela chamou atenção para vários aspectos. Um deles foi inusitado para mim.

Em primeiro lugar, a política de inclusão em escolas regulares não tem uma base empírica. Os estudos que mostram melhor resultado das crianças em escolas regulares não controlam para o viés de seleção. Ou seja, ignoram o fato de que as crianças mais comprometidas acabam tendo menos oportunidade de participar em classes regulares.

Em segundo lugar, as pesquisas comprovam que as crianças especiais não aprendem nas classes regulares. A disparidade em relacão aos pares típicos só aumenta com o tempo. Elas são "expostas" (seja lá o que isso signifique) ao currículo regular mas não o acompanham.

Em terceiro lugar, e aqui vem o inusitado, Gilmour ressalta que quase não existe pesquisa sobre os efeitos das crianças especiais sobre os colegas típicos e sobre as professoras. É interessante esse lapso, já que as correntes contextualistas ou ecológicas são muito influentes na educação. Mas a autora apresenta evidências importantes de que: a) a presença de crianças com dificuldades de aprendizagem e/ou de comportamento na classe compromete a aprendizagem e o comportamento dos colegas típicos; e b) as professoras  regulares não são preparadas e motivadas para trabalhar com esse tipo de aluno e, têm uma probabilidade maior de sair da sala de aula ou da carreira de magistério.

Eu nunca tinha visto alguém preocupado com o efeito das crianças especiais em salas regulares sobre os colegas e professoras. É um ovo de Colombo. Impressionante como ninguém tinha pensado nisso antes. Ainda mais considerando que na área de educação o determinismo sociológico é fortíssimo. Será que é prudente colocar crianças especiais nas classes regulares sem analisar os efeitos que isso pode ter sobre os colegas típicos e professoras? Pois foi exatamente isso que o povo fez. Sem nenhuma pesquisa. A pressuposição subjacente é sempre de que a "diversidade" favorece Deus e todo o mundo. Como? Existem evidências para isso?

A honestidade intelectual exige que mais pesquisas sejam realizadas sobre os efeitos das crianças especiais nos colegas e professoras regulares. Se isso não for feito, se não for demonstrado que os efeitos são mais positivos do que negativos, vamos continuar aderindo a uma prática que parece maravilhosa, que tem toda uma justificativa (ideológica), mas que, na realidade, pode estar mais prejudicando do que ajudando. Dá o que pensar.

Adorei o artigo. Corajosa a Profa. Gilmour. Principalmente por estar colocando perguntas incômodas para suas colegas. Vou atrás das pesquisas que ela menciona. Quem tiver interesse pode baixar vários artigos no seu ResearchGate (Gilmour, 2018c). 

Uma das coisas que a Gilmour pisa e repisa é que essa história de inclusão na classe regular confunde o local de ensino/aprendizagem com a filosofia. Obviamente, a filosofia educacional deve ser a mais inclusiva possível. A idéia é normalizar ao máximo. Mas isso pode ser feito de diversas maneiras, em locais distintos. E pessoas diferentes nem sempre têm as mesmas necessidades. Não existe um modelo tamanho-único de educação. Grande parte do que se chama de "educação inclusiva" atualmente não passa de uma farsa politicamente correta. Basta se dar ao trabalho de conversar com as famílias para ver isso. A Profa. Gilmour mostra que essa experiência anedótica é corroborada pelas pesquisas (ou pela falta delas). 

A atual prática é mais ex- do que in-clusiva. Será que isso vai mudar com o próximo ministro da educação?


Referências

Gilmour, A. F. (2018a). Has inclusion gone to far? Weighing its effects on students with disabilities, their peers and teachers. EducationNext.

Gilmour, A. F. (2018b). How can we improve special education without asking uncomfortable questions? A response to "The better question". EducationNext.

Gilmour, A. F. (2018c). ResearchGate.

Schifter, L. A. and Hehir, T. (2018). The better question: how can we improve the quality of inclusive education. A response to "Has inclusion gone to far"? EducationNext.